Pacificação
O direito de viver em Paz

O mês de agosto de 1987 foi marcado pela violência naquela que é considerada a primeira guerra do tráfico de drogas da zona sul carioca e uma das primeiras do Rio. Na ocasião, as imagens de bandidos que levavam terror à comunidade Santa Marta empunhando armas pesadas ganharam destaque no horário nobre da TV, chocaram o Brasil e ganharam destaque no mundo. Foram necessários mais de vinte anos para que a paz, finalmente, voltasse ao morro.
O Santa Marta foi a primeira comunidade a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Em dezembro de 2008, policiais ocuparam o morro e de lá não saíram mais. A tática foi a mesma utilizada, nos anos seguintes, em comunidades que, depois de anos vivendo sob o poder das armas do tráfico, ganhou a liberdade de volta e, com ela, a presença do estado sob a forma de serviços antes inexistentes. Iluminação pública, coleta de lixo, saúde e educação são apenas alguns exemplos de utilidades públicas que, literalmente, começam a subir o morro.
Como em Bogotá e Medellín, na Colômbia, o Rio precisava acabar com o terrível estigma de cidade partida. Um lugar onde bandos armados dominavam territórios, desafiando governos e levando terror às localidades. A experiência colombiana serviu de inspiração. Recém-eleito, Sérgio Cabral e seu secretário de Segurança José Mariano Beltrame foram até lá para ver de perto os resultados obtidos com a chamada “cultura cidadã” elaborada pelo ex-prefeito da capital Antanas Mockus.
Em conversas com Mockus e seu ex-secretário de Segurança Pública Hugo Acero, hoje consultor das Nações Unidas, Cabral e Beltrame conheceram detalhes do projeto. De volta ao Rio, com a cúpula da inteligência policial, elaboraram o modelo fluminense.

Atualmente, milhares de pessoas sentem, diretamente, os efeitos da pacificação dos territórios. Além das comunidades onde as UPPs foram implantadas, os bairros no entorno viram desaparecer os tiroteios, as guerras entre facções criminosas e as incursões policiais sem fim. O comércio, que antes era constantemente obrigado a fechar as portas por ordens de traficantes ou por conta de confrontos em plena luz do dia, agora funciona normalmente, como deve ser em qualquer lugar do mundo.
No interior das comunidades essa mudança se faz sentir ainda mais forte. Crianças voltaram a brincar na rua, donas de casa conversam no portão sem medo, turistas apareceram e a economia local está aquecida, gerando emprego e renda.
Além dos informais encontros de amigos no fim de semana, moradores já alugam os locais e organizam festas para quem quiser desfrutar do visual deslumbrante da orla carioca, antes inacessível ao cidadão de outras partes do estado.
Para complementar a chegada das UPPs o estado já elaborou planos de reestruturação e modernização da Polícia fluminense. Novas unidades e centrais de controle que, além de proporcionarem mais eficiência no combate ao crime, são fundamentais para garantir a ordem nos grandes eventos esportivos que o Rio receberá nos próximos anos. Alta tecnologia e inteligência trabalhando em conjunto em locais como a Cidade da Polícia, que será construída no Jacaré, e o Centro Integrado de Comando e Controle, em construção na Praça XI e já apelidado de Pentágono carioca.
Outras unidades serão transferidas para pontos estratégicos, como é o caso do Batalhão de Operações Especiais (Bope). O corpo de elite da PM será levado para um antigo batalhão do Exército, em Ramos, próximo à Linha Vermelha e ao conjunto de favelas da Maré. No mesmo local se instalarão a Companhia Independente de Policiamento com Cães e o Grupamento Aéreo e Marítimo (GAM).
Uma polícia presente, atuante e uma política que une inteligência e estratégia no combate ao crime. São filosofias há muito esquecidas no Rio, superadas pelo uso da força e da reação. Desde 2007 elas foram resgatadas para devolver ao cidadão direitos fundamentais, alguns jáaté esquecidos da maioria das pessoas, como o simples ato de viver em paz.
