Cabral e o 'softpower'por Sérgio Besserman Vianna

Os países emergentes como China, Índia e Brasil assumem uma nova posição e um novo papel no contexto global, um dos aspectos mais marcantes deste início de século. O Brasil, articularmente, além dessa nova realidade econômica e geopolítica, tem a chance de falar ao mundo na linguagem do novo século, ou seja, de além do hardpower do poder e do business, praticar o softpower das ideias e da oferta de caminhos.

Isso acontece porque entre os chamados Brics somos aquela nação que mais valoriza as liberdades públicas fundamentais no plano político e social e no da vida cotidiana e privada dos cidadãos, apesar da imensa desigualdade de renda e de direitos que ainda é a cicatriz mais profunda da sociedade brasileira. E acontece também porque entre essas nações o Brasil é aquela que mais está em condições de ter uma mensagem profunda sobre o maior desafio do século XXI: o desenvolvimento sustentável.

Também o Estado e a cidade do Rio de Janeiro vivem novos tempos, e isso é perceptível não apenas nas estatísticas econômicas e sociais, mas também no sentimento subjetivo dos fluminenses e cariocas. Muito se deve ao hardpower, isto é, à melhoria no dinamismo econômico, nos indicadores sociais, na infraestrutura, e na área de segurança pública, inegável gargalo para o desenvolvimento do Estado.

O governo Sérgio Cabral tem inegáveis méritos na alavancagem dessa situação positiva, especialmente por ter promovido o ambiente de negócios a partir de uma condução rigorosa das finanças públicas, pela valorização de práticas modernas de gestão, pelo conjunto de obras e investimentos e pelos resultados obtidos na área de segurança.

Meu ponto de vista pessoal, contudo, valoriza mais o intangível e o softpower. Acho que é nessa praia que o governador fez mais a diferença. Apesar do impacto da economia do petróleo e da siderurgia nos resultados econômicos, o futuro do Rio de Janeiro, muito mais do que nesses setores "pesados", estará no setor de serviços e na economia do conhecimento. Para isso, é decisivo que o Rio de Janeiro mantenha e avance, em seu cosmopolitismo, sua presença como vanguarda cultural e da modernidade dos costumes.

O governador Sérgio Cabral, meu amigo e companheiro de peladas há décadas, democrata tolerante com as diferenças de opinião e posicionamento (por exemplo, não votei nele em sua primeira eleição, o que em nada abalou nossa relação), na minha opinião, repito a expressão, fez mais a diferença na coragem ao assumir posições na luta contra a homofobia, na forma de combate ao uso de drogas, nas liberdades pessoais no plano dos costumes e , principalmente, ao assumir firmemente que, mais do que segurança pública (embora também), as UPPs são uma forma de recuperar territórios para o Estado de direito e permitir à população desses locais uma vida sob a órbita da Constituição.

Para que a democracia brasileira amadureça e nosso processo politico reconquiste representatividade e legitimidade, acima de tudo é necessário que a sua base de apoio sejam ideias. O governador foi firme em algumas ideias que são muito consistentes com as vocações do Rio de Janeiro. Isso ainda vai dar samba.